Ei, desiste não. Se tá difícil, é porque vale a pena.
Tem gente que vai me perdendo, me deixando escapar. Então percebo que a importância que eu pensava ter, na verdade, nunca existiu.

Tati Bernardi (via cogitador)

Quando eu era pequena, morava do lado de um velho meio louco que tinha três cachorros. Pra cada um deles ele tinha dado o nome de um cantor que gostava: tinha o Renato Russo, o Cazuza e o Raul Seixas. Só que ele não batia muito bem da cabeça, sabe? Ele maltratava muito os bichinhos. E quando ele bebia, batia nos cachorros. Muito. Lá de casa eu ouvia os coitadinhos ganindo, chorando. Às vezes não aguentava, chorava com eles. O que mais me entristecia é que todo mundo fingia que aquilo era algo completamente normal, só pelo fato de o cara não regular muito bem. Não era normal. Pra mim ele era um monstro. Então, assim, num dia qualquer que ele tinha saído pra trabalhar, sem pensar muito, soltei os cachorros dele. Todos os três. Renato Russo não conseguia nem abrir um dos olhos direito por causa da surra do dia anterior. Correram rápido sem olhar pra trás, quase me derrubaram quando passaram por mim pelo portãozinho da entrada. Quando o velho voltou, ficou enfurecido ao ver que os seus cachorros tinham fugido; Ele gritava e bradava aos sete ventos que ia descobrir quem tinha aberto o maldito portão. Fiquei com medo. Sabia que, se ele me descobrisse, iria me fazer muito mal. Ele era capaz de fazer mal à qualquer um, não tinha escrúpulos. No dia seguinte ele empreendeu uma busca mal-sucedida pela vizinhança; Alguns vizinhos ajudaram, mas todos sabíamos que àquela hora os três cães já estavam muito longe dali. Só o homem ainda tinha esperanças que eles voltassem um dia, e toda manhã colocava um pote cheio de ração em frente à porta, chamava pelos cachorros. De madrugada eu podia jurar que conseguia ouvir um “Renato Russo! Cazuza! Raul Seixas!” cortando o silêncio da noite. Às vezes ele ficava sentado na varanda olhando a rua, tão desolado que eu quase conseguia sentir pena. Quase. Mas eu pedia à Deus baixinho enquanto observava que nenhum deles, nunca, nunca, nunca, voltasse. Depois de um tempo percebi que minhas preces não eram necessárias; Eles não iam voltar, de qualquer jeito. Nem Renato Russo, nem Cazuza, muito menos Raul Seixas. Porque diabos eles voltariam? Aquela casa nunca tinha sido o lar deles. Aquele homem nunca tinha sido seu dono. E, sabe, às vezes eu vejo as pessoas fazendo isso umas com as outras, a mesma coisa que o velho maluco fez com os seus três cachorros; Vejo gente maltratando uma à outra, espancando o coração de alguém próximo, descontando a raiva em quem tá por perto. E depois, como se nada tivesse acontecido, ainda tem o descaramento de sentar nos degraus da entrada do tempo, esperando pelo retorno das suas vítimas. Ninguém volta pra quem só soube ferir. E isso serve pra todos: tanto cachorros quanto humanos.

Azul Ciano (via cogitador)

Mas ela encontrou você. Você, que não é príncipe. Você, que não tem cavalo branco. Você, que é humano. Você, que também erra. Você, que é homem, mas chora. Você, que nem sempre é valente e corajoso. Você, que também tem defeitos. Você, que ela ama assim, exatamente do jeito que você é: imperfeito.

Clarissa Corrêa.    (via alentador)

cindderela